A feira das esperanças

O dia acordou cinza e a paisagem teimava em insistir que chuva tinha de cair. Na avenida São Paulo, próximo a um shopping, uma multidão aos poucos se amontoava. Os olhos, sempre atentos, fitavam o céu – quase como os navegantes de uma nau que temem tempestade.

"Será que vai chover? Não pode chover!", disse uma senhora que estava próxima a uma gaiola com alguns cãezinhos.

Uma outra mulher, caminhando por entre as pessoas, carregava um Shitsu que não rosnou aos outros cães que lá estavam hospedados – o enredo se assemelhava, talvez, ao clássico de "A Dama e o Vagabundo".

Na gaiola, os cães se agitavam com a presença de possíveis futuros donos. Mesmo com o curto espaço, eles rodopiavam e bailavam, nos efêmeros instantes em que os olhos se curvavam do céu para as grades em que estavam.

A pequena Beatriz Werdek, de 8 anos, clamava por um bichinho a sua mãe. "Mamãe, Mamãe, vamos adotar um cachorrinho, por favor, por favor!", suplicava.

A mãe, Ana Luiza, vira-se a mim e diz "Não dá para passar nesses lugares com ela. Já já minha casa tem mais cachorros do que essa feira", disse em tom cômico.

Se muitos querem os pobres animais que estão à mostra por entre as grades, a unanimidade é de que não se deve adotar um bichinho, quando não se pretende dar nada menos do que amor e cuidados. "Muita gente adota no impulso, se arrepende e depois coloca o animal na rua ou próximo a algum abrigo. Isso, além de desumano é crime", disse Ana Luiza.

O fluxo de pessoas continua aumentando e o céu – que pouco mais cedo assustava –, mostra-se amigo e que não trairá os pobres animais.

Aos poucos as grades vão se esvaziando. Os que conseguem um novo lar, festa e olhares infindos pelo horizonte sem as grades de proteção. Aos que ficam, olhares mais murchos, mas ainda esperançosos de que o novo lar há de chegar.

Foto: Larissa Bezerra
* Por Victor Faria

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