Um dia na vida da cadelinha Nina

Foto: Renato Crozatti

O primeiro ônibus vindo de Curitiba do dia desembarca na Rodoviária de Maringá logo após o primeiro respingo de luz do sol no município. Do veículo, saem, cansados, dezenas de passageiros - além dos experientes funcionários. Uma dona de casa visitando um parente, uma jovem musicista, com seu violino na mala e voltando de uma apresentação na capital, um vendedor de meia idade e barriga saliente que veio visitar uma irmã que está doente, entre tantos outros. Algumas horas depois, um outro ônibus, de outra companhia rodoviária, chega de uma viagem mais longa ainda, após passar pouco mais de nove horas na estrada. Em sua grande maioria paulistanos, é possível avistar olheiras de cansaço, um bebê no colo dormindo, outra criança reclamando com sua mãe que está com fome. À noite, uma cena similar acontece. 

Passa dia, passa noite, entra ônibus e sai ônibus, e centenas a milhares de passageiros passam pelo local todo dia. E há uma pequena criaturinha de quatro patas que os observa, os escuta, brinca com uns, rosna para outros. Recebe carinho, comida e água. E já está lá há um bom tempo. Essa é Nina, a cadelinha-mascote do lugar, o primeiro animal a ser adotado oficialmente pelo município e que tem na Rodoviária de Maringá sua casa. 


Foto: Renato Crozatti

Nina convive com as pessoas da rodoviária desde 2013, quando foi adotada pelo município. Desde então ela ganhou uma singela casa personalizada, água fresca e ração de qualidade todos os dias. Mas ela já era figurinha carimbada no local seis anos antes disso acontecer. Depois de passar um período longo de sua vida na rua e rondar a rodoviária diariamente por alguns anos, a ONG Instituto Olhar Suficiente (Inos) começou a cuidar da “vira-lata”, custeando a alimentação e moradia junto com prefeitura de Maringá. 

Ao adentrar a rodoviária, uma das primeiras coisas que se vê no local é a casa de Nina, feita com madeiras marrom clara usadas em construção civil, com um valor estimado em R$ 420 e cheia de objetos e adesivos de decoração - seu inestimável ursinho de pelúcia fica de guarda na porta da casinha, mas a cachorra não deixa ninguém relar.

Mas essa nova vida da cadelinha só foi possível após a aprovação de uma lei estadual no início de 2013, onde institucionaliza os animais comunitários, como cães e gatos que vivem nas ruas. Assim, a ONG providenciou a vacinação, esterilização e registro da famosa “vira-latas” de pelugem marrom.

Nina adora brincar. Toda madrugada, dois outros “vira-latas” voltam para a rodoviária após passar o dia na rua, se aconchegam próximos à casa de Nina e ficam por lá, ora dormindo, ora brincando com a hóspede canina. Ela também adora crianças, desde o filho de uma empregada até os pequenos estudantes que volta e meia prestam uma visita, os mesmos que há pouco tempo decoraram a casa da cachorra com pequenos adesivos coloridos de animais. 


Foto: Reprodução/Gezeta do Povo

Ela também gosta de pessoas mais velhas que passam por lá, como a aposentada Talge Galante. Ela, baixa e corcunda com a idade, com seus cabelos pintados e presos, sempre dá espiada na cachorrinha quando passa na rodoviária. “Meu deus, como ela é bem tratada!”, diz Talge. Ela, observando a entrada da casa de Nina enquanto a cachorra dá um profundo cochilo em uma tarde chuvosa de domingo, não consegue conter a surpresa toda vez que a vê. “Todo mundo adora a Nina”, arqueja. 

Apesar disso, a idade avançada diminuiu o ritmo de Nina - estima-se que ela tenha entre 10 e 12 anos. Hoje, após as poucas brincadeiras que faz durante o dia, ela deita em tudo quanto é canto da rodoviária. Mas há um cantinho preferido - depois de sua casa, é claro: logo abaixo de uma placa com informações, ao lado do guarda-volumes. Lá, ela interage bastante com Edna Loureiro, responsável por esse setor da rodoviária. 


Foto: Renato Crozatti

Ela, funcionária veterana da rodoviária, viu Nina chegar aos poucos, se estabelecer e virar a figura mais conhecida do lugar. “Tem gente que vem aqui só para tirar foto com ela, como a minha irmã de Londrina”, relembra. Apesar disso, Edna sabe do temperamento forte da cachorra. Ela sempre traz sua poodle branca, já idosa, cega de um olho e quase completamente surda, para o trabalho. Nina, porém, não gosta muito de visitantes caninos, pois a funcionária precisa deixar sua cachorra presa em uma sala. “Elas não se dão”, diz Edna.

Esse temperamento forte de Nina, aliás, fez com que nem todos os funcionários vejam a cachorra com bons olhos assim. Ivo dos Santos, fiscal de plataformas de uma das companhias rodoviárias do local, pensa que talvez a fama instantânea da “vira-latas” tenha contribuído para que a cachorra ficasse um pouco ranzinza demais. “Ela é bem antipática. Algumas pessoas brincam com ela, mas não são todas. Ou ela não dá bola ou fica irritada e até mesmo rosna”, conta ele. 

Mas não é só da antipatia da cachorra que ele lembra.”Ela já fez amizades com muita gente, desde crianças até os andarilhos e moradores de rua que vivem passando na rodoviária. Até o pessoal do posto aqui do lado conhece ela! ”, diz Ivo, e reflete: “a vinda dela para a rodoviária foi bom pra Nina e para as pessoas que passam ou trabalham aqui. Quem não gosta de um cachorro, não é?”. 


*Por Renato Crozatti


Comentários

  1. Sou Maria Helena Biff, do instituto olhar suficiente,e conhecida como a mãe da bina, este dizeres de que a Nina e.primwira animal.adotadonpelo município e mentira,ela ficou na rodoviária porque foi uma decisão judicial, aonde ela.se.tornou animal comuntaria oficialmente.Ao contrário a Nina .nem tudo ou foram flores com o município a..esta pessoa não me procurou para está reportagem, mais obrigada por lembrar da Nossa eterna Nina.

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